terça-feira, 6 de abril de 2010

Resenha "Teoria Lexical" (de Margarida Basílio)

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OBRA: BASÍLIO, Margarida. Teoria Lexical. 8. ed. São Paulo: Ática, 2007. 104 p.

Margarida Basílio aborda a formação de palavras a partir de uma posição questionadora. Seus principais questionamentos repousam sobre a motivação que o falante tem para formar novas palavras e sobre a aceitação de determinadas combinações em detrimento de outras. Para a autora a formação de novas palavras a partir da combinação de morfemas já existentes justifica-se pelo princípio da economia linguística, pois a criação de um novo lexema para cada novo conceito que se desejasse expressar acabaria por sobrecarregar a memória do falante. Novas unidades são assim formadas, por derivação ou por composição, por exemplo, quando se quer utilizar o significado de uma determinada palavra em uma outra classe gramatical ou quando há a necessidade de alteração semântica sem mudança de classe, como é o caso dos diminutivos.

Antes de seguir em sua investigação, Basílio busca conceituar o termo “palavra”. Para ela, trata-se de uma “unidade linguística básica, facilmente reconhecida por falantes em sua língua nativa”, sendo que o que define se duas palavras são ou não dois lexemas distintos é a natureza flexional ou derivacional do processo de formação que deu origem à palavra. Para que fique clara a diferença entre os dois processos de formação faz-se necessário, em um primeiro momento, que se compreenda a palavra como uma estrutura complexa, constituída por mais de um elemento, excetuando-se os casos de unidades monomorfêmicas como mar ou boi, por exemplo. A autora apresenta como formativos mínimos, ou morfemas, o afixo e a raiz. O afixo, quando posicionado antes da base, denomina-se prefixo e, quando acrescentado após a base, sufixo. Entretanto, a palavra não deve ser considerada como uma sequência de morfemas, pois há vários níveis ou camadas na estrutura da palavra. Tais níveis podem ser elucidados por meio da análise em constituintes imediatos, como ensina Valter Kehdi[1] (2007, p.11-12). Basílio ainda lembra que palavras podem ser formadas por duas bases, sem a inclusão de afixos.

O fenômeno da formação de palavras tem sido abordado de diferentes maneiras. A gramática normativa, a partir de uma interpretação passiva do termo “formação”, volta-se apenas para a análise de formas já estabelecidas na língua, mesclando critérios descritivos e prescritivos, sincrônicos e diacrônicos. A autora deixa bem claro que uma análise descritiva dos processos de formação de palavras da língua em uso deve levar em conta a distinção entre diacronia e sincronia, principalmente no que tange à análise de novas formas. A abordagem estruturalista americana, que compreende o morfema como a unidade significativa mínima da língua, preocupa-se com o estudo da estrutura de palavras já formadas, das combinações dos morfemas depreendidos. O problema é que nem sempre o significado de um morfema pode ser isolado do significado global da palavra. A teoria gerativa transformacional, por sua vez, busca analisar justamente a capacidade que o falante tem de formar novas palavras, ou seja, sua competência linguística, as regras acionadas quando há a necessidade comunicativa de formar um novo elemento. Além da necessidade de distinção entre abordagem sincrônica e diacrônica, da análise tanto de formas já existentes quanto de padrões que possibilitam a formação de novos vocábulos, a autora ensina que uma abordagem descritiva do fenômeno de formação de palavras deve descrever também as motivações gramaticais, semânticas ou funcionais de tal fenômeno.

O fato de o léxico apresentar diversas situações de não-previsibilidade de conexão entre forma e significado nas construções lexicais tem levado à criação de várias propostas de separação entre itens lexicais como elementos relevantes para a sintaxe e como elementos de significação extralinguística. Entretanto, para a autora o léxico não é totalmente irregular. Para ela, há palavras regulares, cujo processo de formação coincide como o significado final da palavra derivada, como, por exemplo, vencedor (‘aquele que venceu ou vence’); palavras sub-regulares, como passadeira (‘mulher cuja profissão é a de passar a ferro’ ou ‘tapete comprido que se coloca em locais de passagem’); e palavras totalmente irregulares como impressão (‘noção vaga’). Esse último exemplo utilizado pela autora não parece perfeitamente pertinente, pois, como no segundo exemplo, há uma certa regularidade: impressão também é utilizada fazendo-se referência à base verbal imprimir.

Tais variações quanto à regularidade resultam de quatro fatores: primeiro, há itens lexicais cuja significação evolui globalmente sem que se altere sua constituição morfológica; segundo, situações naturais de metáfora e extensão de sentido acabam sendo disseminadas para outros contextos além dos originais; terceiro, há funções que não são percebidas em certos processos de formação; e quarto, há vários processos que podem afetar uma construção. Sendo assim, para que seja possível um estudo detalhado das particularidades dos processos de formação de palavras deve-se estabelecer uma distinção entre formas já feitas e processos de formação, pois a língua é constituída de elementos que “aconteceram”, mas que, teoricamente, não podem mais acontecer. Eventuais irregularidades quanto à conexão entre o significado de uma palavra e suas partes constitutivas não impossibilitam o estabelecimento de generalizações sobre os processos de formação de palavras e suas funções.

Os principais processos de formação de palavras são a derivação e a composição. A derivação consiste na adição de um afixo a uma base, que pode ser uma forma livre, como em artista (arte+ -ista), ou uma forma presa, como em psicológico (psicolog- + - ico). A composição caracteriza-se pelo acréscimo de uma base à outra. Para a autora, por derivação são formadas palavras cujas propriedades sintáticas ou semânticas se mostram fixas, predeterminadas e generalizantes, enquanto a composição pressupõe a formação de palavras de significação mais particularizante. As afirmações de Basílio se aproximam da opinião de Sandmann, citada por Henriques[2] (2007, p. 133), para quem os afixos parecem constituir um elenco fechado, de caráter fixo e que, no entanto, apresentariam produtividade ilimitada. Quanto à composição, o referido autor argumenta que as bases utilizadas em tal processo expressam significados particulares, sendo por isso, de menor produtividade. Sandmann incorre no equívoco de afirmar algo que só parece pertinente na teoria, pois há diversas restrições aos processos de derivação que o afastam daquela ilimitada produtividade, assim como os processos de composição, apesar de também serem limitados por regras de formação, têm se mostrado inseridos em uma relação cada vez mais aberta. Basílio se mostra mais cuidadosa ao tratar do tema e demonstra que há diferentes níveis de produtividade.

Para Basílio, quanto maior o teor de generalidade veiculado por um afixo, maior sua produtividade. Dessa forma, processos derivacionais que expressam a negação e o grau, por exemplo, são altamente produtivos, dada a generalidade de tais noções. Por outro lado, quanto mais particular for a função do afixo, mais restrito será seu teor de produtividade. Quanto à composição Basílio afirma que não há funções predeterminadas: cada elemento terá uma função definida pela estrutura do composto. Dessa forma, em compostos do tipo substantivo+substantivo, o primeiro elemento será o núcleo e o segundo, o modificador. Quando se trata de substantivo+adjetivo, o substantivo é o núcleo e o adjetivo o modificador, em qualquer ordem. Quanto a compostos do tipo verbo+substantivo, o substantivo funcionará como objeto do verbo. Assim como Sandmann, Basílio também afirma que por composição se expressam significados particulares, que frequentemente não têm relação direta como o significado individual dos componentes. Tal fato se justifica pela função de nomeação de tal processo, que pode ser descritiva, quando faz referência a características objetivas relevantes daquilo que se denomina, ou metafórica, quando a caracterização se dá em termos associativos, não sendo possível inferir o significado a partir da simples observação das formas. Quanto à nomeação descritiva, a autora afirma que é mais frequente que a forma composta apresente características gerais do objeto, possibilitando que o falante identifique a palavra com o objeto designado, como é o caso de navio-escola, por exemplo: é clara a noção de que se trata de um navio. Mas em palavras como mata-mosquito não está evidente se designa uma pessoa ou um objeto. Neste ponto a autora afirma que a escolha de uma construção para nomear determinado objeto exclui a possibilidade de que tal palavra seja usada para designar outro objeto. Tal afirmação não se mostra coerente, pois na prática o que se observa é justamente o oposto. O próprio exemplo utilizado pela autora comprova tal fato: a palavra composta mata-mosquito designa tanto uma espátula para atingir moscas, quanto o líquido que se borrifa para matá-las, assim como também pode designar o profissional responsável pelo extermínio de tais insetos, sendo que essa última possibilidade não é utilizada no registro brasiliense.

Basílio identifica três evidências de regularidade nos compostos formados por verbos e substantivos. A primeira refere-se ao fato de que tais compostos sempre fazem referência a agentes ou instrumentos. A segunda diz respeito a estruturas formadas por verbos específicos como guarda- e porta-, tais estruturas são parcialmente fixas e assemelham-se a formações derivacionais. A terceira evidência faz referência a compostos do tipo verbo+verbo, em que há a repetição do verbo. São casos claros de reduplicação. A autora ainda faz referência à formação de palavras a partir de composição em bases presas. Tal processo se mostra bastante produtivo na linguagem científica e tecnológica e se difere da composição em bases livres pelo fato ser o segundo termo o núcleo e o primeiro o especificador, como em sociolinguística, e ainda por não exercer a função de denominação metafórica.

Além da derivação e da composição, Basílio ainda cita outros processos de formação de palavras, se atendo à derivação regressiva e à parassíntese. Quanto à primeira, a autora deixa claro que não se trata de remoção de afixos, de abreviação ou de redução. Trata-se de um processo em que há a retirada de uma sequência fônica que foi “reinterpretada” como afixo, como em sarampão cuja supressão da sequência fônica -ão, reinterpretada como sufixo aumentativo, deu origem à palavra sarampo. Henriques (2007, p. 125) não concorda com essa posição, pois para ele o caso de sarampo só tem pertinência diacrônica. Sua discordância é coerente, pois sincronicamente o falante não tem consciência de que -ão não é um sufixo aumentativo.

Sob esse ponto de vista a derivação regressiva deverbal não deveria ser interpretada como tal, pois o que é suprimido do verbo para a formação do substantivo seria justamente o sufixo flexional. Basílio sugere duas interpretações para esse fenômeno. Primeiro, pode-se considerar como base o tema verbal (Rad+VT), acrescentando-se sufixos como -e, -o ou -a, para a formação do substantivo. A segunda possibilidade seria considerar a terminação -ar como sufixo derivacional, ao radical que o precede seria acrescentada a vogal temática, dando-se origem ao substantivo deverbal. Basílio ainda ensina que só se trata de formação deverbal quando esta tiver um sentido mais abstrato e quando puder ser usada com sentido verbal, pois uma de suas principais funções é expressar o significado do verbo dentro de uma estrutura nominal, como o que torna possível a utilização de seu significado nas diversas funções sintáticas que o substantivo pode exercer na oração. Kehdi (2007, p. 23), citando Mário Barreto, ensina que para se constatar se um substantivo deriva do verbo, deve-se verificar se o substantivo denota ação. Se de outra forma, o substantivo designa algum objeto concreto ou substância, o verbo será derivado do substantivo.

Quanto à derivação parassintética ou circunfixal, Basílio ensina que o que a caracteriza é a adição simultânea de prefixo e sufixo a uma base. A retirada de um ou outro afixo dá origem a uma palavra que não existe na língua. Ela lembra que o acréscimo dos afixos não se dá em dois níveis, como no caso de descentralizar, formada a partir do acréscimo do prefixo des- à base centralizar, que, por sua vez, foi formada pelo acréscimo do sufixo -izar à base central, e assim por diante. A autora, entretanto, afirma que mesmo quando a supressão de um afixo dá origem a uma palavra existente na língua, deve-se verificar se o significado da base resultante acrescida do afixo corresponde ao significado da construção global. Como exemplo ela cita as palavras desdentar e desdentado. Não se pode afirmar que desdentado seja ‘alguém paciente do ato de desdentar’. A autora explica que tais situações são recorrentes em caso de formações parassintéticas como o sufixo -ado.

Uma das motivações para a formação de palavras é a mudança de classe, como ensina Basílio nos primeiros capítulos do livro. A nova palavra formada, apesar de pertencer a uma outra classe, pode apresentar o mesmo significado da palavra de que se originou, como no caso de substantivos formados a partir de verbos como acréscimo do sufixo -mento (acontecer, acontecimento). Pode também acontecer que a palavra formada apresente significação diversa daquela de que se originou, como em substantivos formados com o acréscimo do sufixo -dor à base verbal (vender, vendedor).

Para que o fenômeno da formação de palavras possa ser descrito com coerência faz-se necessária a definição objetiva das classes de palavras. Tal definição tem sido feita com base em critérios semânticos, morfológicos e/ou sintáticos, conforme a natureza da abordagem que se faz. A autora explica que na maioria das vezes nenhum dos critérios é isoladamente suficiente para que se defina se determinada palavra é um substantivo, um adjetivo, um advérbio ou um verbo. Entretanto ela constata que as propriedades semânticas de uma palavra têm uma relação estrita com suas propriedades sintáticas e morfológicas e, a partir desta constatação, a autora defende que a primeira decisão que um estudioso deve tomar, quando se predispõe a descrever processos de formação, é se a definição de classes de palavras deve ser feita levando-se em conta os três critérios a um só tempo ou se será estabelecida uma hierarquia entre eles, de forma que algumas propriedades passem a ser derivadas de outras.

A autora ainda cita o processo de derivação imprópria, ou conversão, que consiste na transposição de uma palavra de uma classe para outra, sem que seja alterada a sua forma. Os casos mais comuns são os de conversão de adjetivo em substantivo, verbo em substantivo e adjetivo em advérbio. Quanto aos primeiros, sua naturalidade repousa na compatibilidade das funções de caracterização e designação do adjetivo e do substantivo. Quanto à conversão de adjetivos em advérbios, percebe-se que há identidade de funções. Basílio ressalta que enquanto substantivos derivados de adjetivos fazem referência a qualidades e propriedades (pobre, pobreza), substantivos gerados por conversão referem-se aos seres que têm tais propriedades (o pobre).

Para Basílio, os processos de formação de palavras podem ter três funções fundamentais: a denotativa, relativa à representação de conceitos novos; a gramatical, de adequação das palavras a diferentes estruturas sintáticas; e funções de caráter discursivo, que dizem respeito à adequação das palavras à forma e aos objetivos do enunciado. Como exemplo de processos de formação com função semântica a autora apresenta a prefixação que, na maioria dos casos, não pressupõe mudança de classe, e a composição, tanto quando o composto apresenta a mesma classe da base (couve-flor), como quando há mudança de classe (guarda-roupa). No caso de formação de verbos a partir de adjetivos percebe-se também a presença da função semântica, assim como na formação de nomes de agentes e instrumentos a partir da adição do sufixo -dor à base verbal. Em todos esses casos, quando há mudança de classe esta é consequência da função semântica.

Os processos de formação de palavras que objetivam adequar palavras já existentes a novas posições e funções sintáticas têm função gramatical. Basílio ressalta que tal função não ocorre isoladamente, sempre há um fator semântico. Entretanto, ela cita a formação de advérbios pelo acréscimo do sufixo -mente a adjetivos como um exemplo de processo cuja função é quase puramente sintática. Ela ainda cita a nominalização como exemplo de processo em que se dá adequação sintática de um verbo a estruturas nominais.

Quanto à última função, a discursiva, Basílio afirma que se divide em dois tipos: a expressiva e a textual. Quando há função expressiva, o falante expressa atitude subjetiva em relação ao enunciado. Tem-se como exemplo a atribuição de grau. Há função textual quando o que se pretende é a adequação de itens ou classes lexicais ao tipo e à estrutura do enunciado. Um exemplo claro é a formação de substantivos deverbais que além de possibilitarem uma interpretação factiva, ainda podem apresentar uma função neutralizadora, no sentido de não fazerem referência a noções de tempo e modo. A produtividade da nominalização deve-se às várias possibilidades que surgem a partir do seu uso na estrutura textual: ela permite a compactação da informação e também possui função anafórica, além de caracterizar o tipo do discurso, particularmente o discurso formal escrito.

Basílio ressalta que a tendência geral dos processos de formação é que estes apresentem uma função semântica ou então uma função mista, como é o caso da nominalização que além de apresentar aspectos sintáticos e exercer funções textuais, exerce também a função semântica, que deriva da função denominadora típica do substantivo. Dessa forma percebe-se que os processos de formação de palavras têm relação também com a estruturação gramatical, textual e expressiva do enunciado.

A autora encerra o livro trazendo um breve comentário a respeito das diferenças entre língua escrita e língua falada e das circunstâncias em que se dá a formação de novas palavras em cada um desses contextos. Segundo Basílio a língua escrita, cujo objetivo maior seria o de superar os limites do tempo e do espaço, caracteriza-se por primar pela objetividade e pela formalidade enquanto a língua falada se caracteriza pela função expressiva, ou seja, está mais aberta para todo processo que expresse afetividade ou emoção. Essas diferenças se refletem no léxico característico de cada um desses registros. Basílio cita como exemplo de realização morfológica de função expressiva o caso da formação de diminutivos, aumentativos e superlativos que, segundo ela, sempre revelam uma atitude subjetiva e avaliativa do falante. Quando o falante opta por referir-se à dimensão de um objeto fazendo uso do diminutivo ou aumentativo ao invés de utilizar adjetivos como grande ou pequeno, ele expressa uma atitude emocional assim como quando utiliza o superlativo sintético ou sufixal (inteligentíssimo) em detrimento do superlativo analítico (muito inteligente).

Basílio ainda apresenta alguns sufixos que expressam atitude subjetiva: o sufixo -udo, por exemplo, qualifica seres por terem alguma parte do corpo maior do que o normal (narigudo), e o sufixo -ão, que pode expressar pejoratividade em palavras como resmungão e fujão, por exemplo. Para a autora, é mais comum a expressão de pejoratividade do que de noções positivas, por meio de marcas morfológicas. Ela apresenta vários exemplos que parecem confirmar sua posição: são sufixos como -ice (criancice), -agem (malandragem), -ção (falação), -ento (grudento), -eiro (rueiro). Além destes, a autora ainda cita o prefixo sub-, em palavras como submundo.

Basílio afirma que o prefixo super-, por sua vez, só ocorre junto a bases que expressem valor positivo, como superinteligente. Tal afirmação não parece coincidir com dados da língua falada em que enunciados como “Ele é super-intransigente” ou “É algo superdesagradável” parecem comuns, como nos exemplos a seguir retirados da internet: “Realmente é uma situação super desagradável ouvir relatos de sofrimento de outros.”[3], “Ele é super-intransigente, jamais poderia assumir a liderança da empresa.”[4]. Percebe-se que o referido prefixo tem adquirido status de adjetivo, tanto que é frequente a sua utilização como forma livre. Basílio lembra que todos esses exemplos de realização morfológica do grau ou expressões de pejoratividade por meio de sufixos são típicos da língua falada, não sendo aceitos na língua escrita, dada a sua exigência de neutralidade.

Ainda quanto às peculiaridades da língua falada e da língua escrita, Basílio afirma que, por ser um ambiente mais propício para “experimentações”, a formação de novas palavras é mais frequente na língua escrita. A autora acredita que o ato da fala exige rapidez e por isso, o falante não teria na língua oral um espaço para criações. Nesse ponto Basílio acaba por apresentar uma informação que de certa forma contradiz com conceitos apresentados anteriormente, pois, se a escrita se caracteriza por objetividade, formalidade e neutralidade, não pode constituir um espaço adequado para inovações. O contrário se observa na fala, ambiente em que o falante tem mais oportunidade de esclarecer um conceito que não se mostre claro o bastante para o interlocutor, como seria o caso de uma palavra criada no momento. Entretanto a autora justifica sua argumentação explicando que a língua escrita pressiona o indivíduo a adequar estruturas já existentes a novos estruturas gramaticais, o que o obriga a acionar processos de formação de palavras. Para ela, o falante não aciona com tanta frequência tais processos na língua oral, optando por utilizar formas já existentes, mesmo que incorra em “erros” gramaticais, no sentido da gramática tradicional.

Teoria Lexical é um livro bastante abrangente, mas que pela extensão reduzida trata apenas superficialmente de alguns temas que exigem uma investigação mais cuidadosa, como, por exemplo, a questão da independência de alguns prefixos, das diferenças entre estes e os sufixos no que tange a fatores semânticos e a questão da derivação regressiva deverbal, da parassíntese e da conversão, que suscitam questionamentos de ordem terminológica. Talvez o fato da autora apenas iniciar tais questionamentos, crie no leitor um ímpeto de investigação que pode levá-lo a pesquisar sobre o assunto. Basílio também optou por não problematizar a definição de palavra e de morfema. Entretanto, o livro é bastante pertinente para leitores que desejam iniciar seus estudos em morfologia, pois a autora, além de não fazer uso de termos técnicos sem o devido esclarecimento, apresenta uma visão bem ampla dos processos de formação de palavras.

Por Lorena Brandizzi


Novembro de 2009
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[1] KEHDI, V., Formação de Palavras em Português. 4ª ed. São Paulo: Ática, 2007.

[2] HENRIQUES, C.C., Morfologia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

[3](http://especiais.profissaoreporter.globo.com/programa/2009/09/24/sai-volto-ja/, acesso em 16/11/2009)

[4](http://www.dicionarioinformal.com.br/ buscar.php?palavra= intransigente, acesso em 16/11/2009)

Um comentário:

  1. Obrigada. Você me ajudou. Poderia dizer... Salvou minha vida.

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