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Mostrando postagens de 2011

Entre o ceticismo e a esperança

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O Brasil é conhecido mundialmente pelos seus três famosos dias de carnaval e pelo seu futebol premiadíssimo. Nos últimos anos, no entanto, a fama de nosso país tem se expandido para além de suas festas e de seus jogadores: a corrupção de nossos políticos chegou a um nível tão crítico que até no exterior nossos “homens de poder” se tornaram celebridades. Que temos políticos corruptos sentados no Congresso Nacional e nos “representando”, não é algo que desconheçamos e talvez nem seja algo que nos surpreenda ou indigne (não mais). O que nos causa indignação é a sensação de que a justiça nunca será feita. Ano após ano contemplamos estupefatos esses representantes de si mesmos sendo conduzidos às mais altas cortes e voltando de lá ilesos, como se nossos tribunais fossem fontes de águas purificadoras capazes de tornar ilibada a mais reprovável conduta. A sociedade assiste, do lado de cá, toda sorte de dossiê, de operação, de CPI, com a expectativa ingênua de que tais procedimentos tenham um …

Uma análise do Poema II de "O guardador de Rebanhos"

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O meu olhar
O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914

Uma análise do poema "Tão cedo passa tudo quanto passa!", de Ricardo Reis

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Tão cedo passa tudo quanto passa! Morre tão jovem ante os deuses quanto Morre! Tudo é tão pouco! Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala. O mais é nada.
Ricardo Reis, 3-1-1923
O poema trata da vida enquanto espaço da transitoriedade. Há a aliteração da consoante |s|, sugerindo uma atmosfera de suavidade, de calma, a mesma calma com a qual o eu-poético aceita a transitoriedade da vida. Uma transitoriedade que faz com que tudo se encerre de forma precoce. O segundo verso pausa antes de que se encerre o significado que sugere, há o efeito de cavalgamento: o referido verso se encerra de forma precoce, lançando seu conteúdo sobre o terceiro verso. O encerramento precoce do verso pode ilustrar a própria precocidade com que tudo quanto morre... morre. O eu-poético constata tal precocidade, e inicia o terceiro verso de forma definitiva e exlamativa: “(...) Morre!”. Essa morte é definitiva: assim como encerra a unidade gramatical, ela encerra tudo e o faz de forma…

"A catástrofe e a solidariedade em O ano de 1993"

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“O ano de 1993” é um obra cuja materialidade tem intrigado os críticos literários. O texto não é escrito em prosa, mas também não o é em verso, não se trata de um poema e é difícil reconhecê-lo como um romance. O livro compõe-se de trinta partes e é escrito em forma de versículos, sem pontuação alguma, como um fluxo ininterrupto. Entretanto, é interessante notar que a ausência de tais sinais gráficos não prejudica a compreensão do texto. Américo Antônio Lindeza Diogo, em seu artigo “‘O ano de 1993’: representação e poder”, define a obra de José Saramago como uma distopia. Américo Diogo defende a hipótese de que Saramago traz do futuro a ideia de um provérbio: “Sendo importante a imprecisão genelógica, não parece valer muito a pena dar-lhe a volta em oitenta gêneros. Publicado em 1975, e necessariamente escrito antes, O Ano de 1993 é uma alegoria que produz uma duplicidade de sentido com base numa diferença: (...) um tropo em que o que se diz significa outra coisa (...). Especificamente…