sábado, 22 de março de 2014

Moisés e sua liderança


Rembrandt, 1659

INTRODUÇÃO

Todo líder cristão aprende desde o início que o seu papel é servir a Deus e a seu povo. Muitas vezes, com o intuito de fazer o seu melhor, o líder acaba centralizando a gestão da Igreja totalmente em si, esquecendo-se da falibilidade inevitável dos projetos solitários. Um líder centralizador corre mais riscos de render-se à ambição, à sede de poder, à corrupção e ao fracasso. Um líder que trabalha em equipe, por outro lado, divide obrigações, sucessos e dificuldades. No final, ele sabe que tudo que é feito por sua equipe é para glorificar a Deus.
A ideia do trabalho em equipe está bastante difundida nos dias atuais. No entanto, a tendência à centralização está sempre presente e se revela em pequenos aspectos da liderança. O estudo da Palavra de Deus nos capacita a identificar os riscos de uma gestão “totalitarista” e nos auxilia na adoção de uma postura que valorize a noção de hierarquia vinculada ao trabalho em equipe.
O capítulo 18 de Êxodos nos mostra como Moisés, ao acatar os conselhos de seu sogro, abandonou um sistema de liderança centralizador para exercer uma gestão descentralizada, fundada no trabalho em equipe. Ao estudar o texto bíblico, objetivamos identificar: 1) as características maléficas do primeiro sistema e suas conseqüências para o líder e para o povo; 2) como foi o processo de mudança para o sistema descentralizado; 3) os benefícios do novo sistema para o líder e para o povo de Deus.
Por fim, buscaremos no Novo Testamento evidências do valor que Deus dá ao trabalho em equipe.

I - Moisés e seu sistema de liderança centralizador

Características do modelo centralizador:

1)      Solidão (v. 14)“porque te assentas só?”: o líder solitário não tem ninguém com quem dividir preocupações ou alegrias. É uma “corda” que se rompe facilmente (Ec 4.9-12).

2)      Indisponibilidade (v.13) “de manhã até a tarde”: Moisés tinha o seu dia totalmente ocupado por atividades que poderiam ser realizadas por outras pessoas. Não podia descansar ou dedicar-se à sua família.

3)      Ineficiência (v. 13): mesmo se esgotando, Moisés não conseguia atender a todos. O povo ficava “em pé” aguardando todo o dia para ser atendido.

4)      “Personalização” da fé (v. 15) “este povo vem a mim para consultar a Deus“: o povo queria consultar a Deus e acreditava que só Moisés poderia representá-los diante de Deus. O líder centralizador corre o sério risco de ser “idolatrado” pelos fiéis ou de considerar-se a si mesmo um ídolo esquecendo-se que o que importa é que Deus seja engrandecido (Jô 3.30).

Consequências de uma liderança solitária:

1)      “Não é bom o que fazes” (v. 17): Jetro era uma pessoa que observava de fora. Alguns estudiosos sugerem que ele era um sacerdote pagão e que sua conversão se deu em Êxodos 18 quando ele ouviu os testemunhos do que Deus havia feito por meio de Moisés. Podemos tirar algumas lições daqui:
a)       Deus usa quem Ele quer e quando Ele quer: o fato de Jetro não ser um membro daquele grupo há tanto tempo quanto os outros não impediu Deus de usá-lo e Moisés não foi preconceituoso, ele acatou os conselhos de seu sogro.
b)      Deus usa nossas habilidades pessoais: Deus usou habilidades específicas de Jetro para auxiliar Moisés. As pessoas trazem consigo habilidades que podem ser úteis na obra de Deus (Bezalel: Ex 35.30-33; a sogra de Simão: Mc 1.30; Débora: Jz 4.4-9; José: Gn 41:38-40), desde que elas compreendam que tudo o que fazem deve ser para a honra e glória do Senhor (I Co 10. 31).
c)       Humildade para receber críticas de fora: muitas vezes pessoas que não estão envolvidas diretamente na situação têm um ponto de vista que o líder ainda não havia considerado. É necessário humildade para acatar conselhos externos. O Senhor se encarrega de conduzir os humildes (Sl 25.9) e lhes concede graça (Pv 3.34).

2)      Fadiga, stress, exaustão e envelhecimento precoce do líder: “Totalmente desfalecerás” (v. 18)
Nós somos humanos e Deus nos fez com limites fisiológicos específicos criados por Ele. Ultrapassar esses limites por falta de sabedoria é afrontar a Deus e às suas escolhas a respeito de nossa constituição física e psicológica. É claro que Deus vê a intenção do coração e valoriza a atitude daqueles líderes que agem como Paulo, que afirmou “De bom grado gastarei e me deixarei gastar pelas vossas almas” (II Co 12.15). No entanto, até Paulo sempre trabalhou em equipe, sob a orientação do próprio Deus: em suas viagens, sempre levava um companheiro com quem compartilhava a liderança (Barnabé, At 13.2; João Marcos, At 13.13; Silas, At 15.40; Timóteo, At 16.1-3). Como Deus conhecia o coração de Moisés, enviou-lhe um conselheiro quando já estava a ponto de “desfalecer”. No hebraico, o verbo teria o sentido de “envelhecer precocemente, exaurir-se”. Quem envelhece precocemente deixa a obra pela metade.

3)      Esgotamento da congregação: “... assim tu como este povo que está contigo” (v. 18)
Moisés não percebia que seu stress e exaustão estavam prejudicando a obra de Deus. O povo estava se esgotando da manhã até a noite para ter suas necessidades atendidas e mesmo que Moisés fizesse o máximo de sua capacidade não conseguiria atender a todos.

4)      “... este negócio é mui difícil para ti. Tu só não o podes fazer.” (v. 18)
Moisés não conseguia ver a impossibilidade daquele trabalho. Foi necessária uma visão externa para trazer-lhe um senso de realidade.

II - Mudando para um sistema de liderança descentralizado

Passos para a adoção de uma liderança compartilhada

1)      Busca de orientação: “Ouve agora a minha voz, eu te aconselharei, e Deus será contigo” (v. 19)
“... com muitos conselheiros se obtém a vitória” (Pv 24.6 NVI). Deus, em Sua Palavra, sempre valorizou o aconselhamento. Ele não procura líderes autossuficientes, isolados ou independentes. Tais pessoas vivem à beira do fracasso. O primeiro passo para um líder que deseja adotar uma liderança compartilhada é ouvir os conselhos que chegam até ele, consultar a Deus sobre sua validade e aplicá-los no que for conveniente. Muitas vezes, acreditamos que detalhes práticos, triviais ou cotidianos não influenciam  a obra ou não interessam a Deus. Mas tais detalhes podem fazer a diferença entre ter ou não a presença a Deus conosco (“... e Deus será contigo”).

2)      Fazer indiretamente e interceder: “Sê tu pelo povo diante de Deus” (v. 19)
Jetro sugeriu que Moisés representasse o povo perante Deus e fosse representado perante o povo por meio dos outros líderes com quem passaria a compartilhar a liderança. “O líder que faz tudo está dizendo que ninguém pode fazer o que ele faz, mas isto não é verdade”[1]. A glória do líder será menor se ele delegar tarefas, mas o sucesso da obra será maior, pois liderados ocupados têm menos tempo para criticar.

3)      Ensinar, orientar e treinar: “... declara-lhes tu os estatutos e as leis e faze-lhes saber o caminho em que devem andar e a obra que devem fazer” (v. 20)
Jetro aqui orienta Moisés a tomar para si a responsabilidade pelo ensino do povo como um todo. Por meio do ensino, Moisés estaria também treinando os novos líderes. Podemos identificar três componentes deste treinamento:
a)       “... declara-lhes os estatutos e as leis...”: mostra-lhes que eles têm uma base sobre a qual agir, um referencial. Não podem agir como quiserem. (Mt 28.30)
b)      “... faze-lhes saber o caminho em que devem andar...”: quem não é orientado erra o caminho diversas vezes antes de acertar. Erros podem ter consequências graves. O líder conhece o caminho  e está nele. Por isso pode indicá-lo aos liderados, acompanhando-os no caminho.
c)       “... e a obra que devem fazer”: quando uma função é delegada, ela deve ser bem explicada para que o delegado saiba o que se espera dele. No serviço público existe o “ato de delegação”. É interessante observar o que consta desse ato: 1) quem delega (a quem o delegado deve se reportar), 2) quem recebe a delegação (para que a pessoa não fuja de suas obrigações), 3) a tarefa delegada (para que não extrapole ou cometa abuso de poder) e 4) o prazo da delegação (para que saiba quanto tempo tem para cumprir a tarefa).

4)      Formar uma equipe eficaz: “E tu, dentre todo o povo procura homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza...” (v. 21)
Jetro aconselhou Moisés a observar algumas características ao procurar por auxiliadores. Tais homens deveriam ser:
a)       capazes: as pessoas apresentam habilidades pessoais específicas. É sempre bom observar o potencial dos liderados, o perfil de cada um. Muitas vezes a pessoa parece não ter uma habilidade específica, mas pode ser trabalhada com base em seu potencial e pode desenvolver a habilidade ao entrar em ação. A inércia é inimiga do crescimento.
b)      Tementes a Deus: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria...” (Pv. 9.10). “Nem sempre pessoas com perfil de liderança temem a Deus”[2]. Pode acontecer de uma pessoa ser nova na fé e ainda não compreender que a obra é do Senhor. Tal pessoa pode procurar autopromover-se por meio do serviço cristão. Daí a importância do ensino e da orientação. O temor do Senhor pode ser aprendido: muitos só ouviram falar de Deus, precisam conhecê-lo (Jó 42.5).
c)       Homens de verdade: o compromisso com a verdade é fundamental na obra de Deus. É inadmissível que um líder cristão se envolva com mentiras. Um dos sinais dos fins dos tempos é o surgimento de falsos líderes que proferem mentiras justamente por terem suas mentes cauterizadas, por terem perdido o temor do Senhor (I Tm 4.2).
d)      Que aborreçam a avareza: o amor ao dinheiro é um sentimento que afasta qualquer cristão de Deus. Um líder que ama mais ao dinheiro do que a Deus é um líder subornável, corrompível e inapto para o serviço cristão. No caso de Moisés, os líderes escolhidos por ele atuariam como juízes, daí a importância de escolher líderes que não se deixariam comprar. Nos dias atuais, essa dificuldade é ainda maior, pois vivemos em uma sociedade altamente capitalista em que não são poucos os casos em que a fé tem sido tratada como mercadoria. É necessário que os líderes saibam lidar com o “poder” inerente à sua função gestora sem contudo sucumbir à ganância e à mentira. (Jo 27.8; Ef 5.3)

Benefícios de uma liderança compartilhada

1)    Saúde física, espiritual e mental do líder “assim, a ti mesmo te aliviarás da carga e eles a levarão contigo... poderás, então, subsistir” (v. 22, 23): “Sozinho, ninguém é capaz de cuidar do rebanho do Senhor”[3]. Ao compartilhar a liderança, o líder abre espaço em sua agenda para cuidar de si e dos seus e ainda dá oportunidade para outros trabalharem na obra de Deus, desenvolvendo suas habilidades.
2)    Liderança mais eficiente (processo) e mais eficaz (resultado):
a)     maior abrangência da administração e atendimento pleno das necessidades do grupo “para que julguem esse povo em todo o tempo” (v. 22): agora Moisés poderia estar indiretamente em contato com todo o povo, em todo o tempo, por meio de seus representantes.
b)    sistema de hierarquia “põe-nos sobre eles por chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez” (v. 21). Um sistema descentralizado de liderança não significa falta de hierarquia. Moisés não deixou de ser o líder daquele grupo. “a submissão é melhor do que a gordura de carneiros” (I Sm 15:22 NVI).
c)     especialização das funções segundo habilidades “toda causa grave trarão a ti, mas toda causa pequena eles mesmos julgarão” (v. 22): o Senhor nos criou com habilidades específicas. Ao delegar tarefas, o líder permite que alguém faça algo melhor do que ele mesmo faria.
3)    Tranquilidade para os liderados “todo este povo tornará em paz ao seu lugar” (v. 23): ao ter suas necessidades atendidas de forma mais rápida, o povo poderia retornar às suas atividades em paz, ou seja, teriam a tranquilidade necessária para desempenhar suas tarefas diárias.


CONCLUSÃO

            O conceito de descentralização pode parecer inadequado à primeira vista, pois acreditamos que a obra de Deus é, na verdade, centralizada em Deus. Afinal, “dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas” (Rm 11.36). No entanto, mesmo sendo o centro de tudo, Ele nos permitiu participar de seu projeto ao nos delegar tarefas, ao nos conceder “ministérios”. A palavra “ministério” traz consigo um sentido mais amplo do que o que temos normalmente associado a ela: o sentido de serviço. Dessa forma, todos recebemos um ministério de Deus, um serviço a ser executado.
Os líderes não podem agir como se fossem o centro da obra de Deus, pois essa posição já está ocupada pelo Senhor. Deus é o dono da obra, os líderes são “despenseiros”, encarregados da administração e distribuição e, “ora, o que se requer desses encarregados [despenseiros] é que sejam fiéis [dignos de confiança do seu Senhor]” (I Co 4.2 NVI/AMP). Um dos indícios da fidelidade de um encarregado é que não cobice a posição de seu superior. Jesus, mesmo sendo Deus, não “teve por usurpação ser igual a Deus” (Fp 2.6). A atitude de Lúcifer foi totalmente oposta à de Jesus: ao receber uma delegação de Deus, não se conformou; quis subir “acima das estrelas de Deus” e ser “semelhante ao Altíssimo” (Is 14.13,14).

“O título aplicado a Lúcifer em Isaías 14:12 reflete a posição que ele tinha uma vez no Céu como líder dos anjos. Mas, sendo um ser criado, sua posição sempre seria inferior à de seu Criador, Cristo. João 1:1-3; Efés. 3:9; Heb. 1:2. Lúcifer não quis reconhecer este fato. Não importa quanto Deus tenha dado a Lúcifer, obviamente não foi suficiente. Ele queria mais. E era um ser que desde o começo foi criado perfeito! Que advertência a queda de Lúcifer deve ter sobre nós – pecadores, egoístas e defeituosos desde o começo – sobre o perigo da exaltação própria, do orgulho e da cobiça, especialmente quando surgem de modo muito sutil?[4]

Há um conceito na física que pode ilustrar bem tudo o que foi estudado nessa lição: o conceito de força resultante. A aplicação de uma força sobre um corpo pode gerar uma força resultante centrípeta ou uma (pseudo[5]) força resultante centrífuga. Se aplicarmos esses conceitos à distribuição de tarefas na obra de Deus, no primeiro caso, teremos um líder de cujas ações resulta uma força centrípeta, que atrai para si todas as responsabilidades da igreja ao recusar-se a distribuir funções. A tendência dessa administração é a redução de sua abrangência. Afinal, não há expansão, há retração, contração. No segundo caso, temos um líder cujas atitudes gerariam uma força centrífuga: ele distribui funções, delega tarefas e responsabilidades. Aqui, a expansão é inevitável, pois o raio de alcance é tão grande quanto a capacidade desse líder de delegar sem, contudo, perder o contato com seus delegados. Esse contato é garantido por meio da manutenção da hierarquia, um conceito que jamais poderá ser abandonado dentro da obra de Deus, pois é inerente à vida cristã. Jesus é  o maior exemplo que poderíamos ter: ele tornou possível a expansão do evangelho por meio da delegação de um ministério aos seus discípulos (Lc 10.1-12) e ainda orientou seus discípulos a repetir o processo, fazendo novos discípulos (Mt 28.19). Foi dessa forma que a Palavra de Deus chegou até nós.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORRADI, Wagner et al. Fundamentos de Física I. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008
BÍBLIA SAGRADA. Versões: Nova Versão Internacional (NVI), Amplified Bible (AMP), Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), Almeida Revista e Corrigida (ARC). Disponíveis em <https://www.bible.com/pt-BR>
Estudo Dirigido – O grande conflito cósmico. Estudo I – Guerra no céu. <http://www.bibliaonline.net/estudos/?acao=tema&estudo=10&licao=1>
VIEIRA, Rev. Samuel. VELHAS E NOVAS BASES DE LIDERANÇA. 2009. Disponível em ipbanapolis.org.br>


[1] Rev. Samuel Vieira
[2] Idem. Ibdem.
[3] GILBERTO, Pr. Antônio. LIÇÕES BÍBLICAS, 1o/2014. Rio de Janeiro: CPAD, 2014, p. 59,60.
[5] O entendimento atual na física é o de que “não existe força centrífuga” (CORRADI, 2008, p. 251). A impressão que temos ao olhar de fora é uma ilusão, pois na verdade, na ausência da força centrípeta, o objeto seguiria uma trajetória retilínea. “Os objetos abandonam as trajetórias curvas não devido à presença de algum tipo de "força centrífuga" responsável por tirá-los das trajetórias curvilíneas, mas sim porque as forças centrípetas necessárias aos movimentos curvilíneos por algum motivo não se fazem mais presentes.” (<http://pt.wikipedia.org/wiki/For%C3%A7a_inercial_centr%C3%ADfuga>)

Gestão Estratégica de Pessoas na Igreja




INTRODUÇÃO

            A gestão de pessoas na Igreja reveste-se de características específicas que a diferenciam da gestão de pessoas em instituições seculares. A diferença reside no fim desejado em cada uma delas. Nas empresas privadas, por exemplo, o fim esperado é o lucro e toda ação relacionada à administração de pessoas será voltada à otimização dos lucros da empresa. Na Igreja, o fim desejado é glorificar a Deus realizando a sua obra na terra. Existem ferramentas que podem auxiliar o líder cristão a alcançar os objetivos que Deus pôs em seu coração. Duas dessas ferramentas são o planejamento e a delegação.
Sobre delegação já aprendemos que a ideia do trabalho em equipe está bastante difundida nos dias atuais. No entanto, a tendência à centralização está sempre presente e se revela em pequenos aspectos da liderança. O estudo da Palavra de Deus nos capacita a identificar os riscos de uma gestão “totalitarista” e nos auxilia na adoção de uma postura que valorize a noção de hierarquia vinculada ao trabalho em equipe.
E sobre planejamento, entendemos que é impossível liderar sem planejar. A capacidade de planejar é um dom que nos foi dado por Deus juntamente com todas as outras habilidades cognitivas que possuímos. Os descrentes já fazem uso dessa habilidade há muito tempo. Como a Bíblia alerta, muitas vezes eles agem de forma mais prudente do que nós (Lc 16.8).
Este seminário tem como objetivo oferecer aos líderes a oportunidade de refletir a respeito da validade de tais ferramentas e indicar maneiras de se adotar atitudes relacionadas ao planejamento e à delegação dentro do exercício da sua função de liderança.

I - Moisés e seu sistema de liderança centralizador
Êxodos 18:13-23
13 E aconteceu que, ao outro dia, Moisés assentou-se para julgar o povo; e o povo estava em pé diante de Moisés desde a manhã até à tarde
14 Vendo, pois, o sogro de Moisés tudo o que ele fazia ao povo, disse: Que é isto que tu fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até à tarde?  
15 Então, disse Moisés a seu sogro: É porque este povo vem a mim para consultar a Deus.  
16 Quando tem algum negócio, vem a mim, para que eu julgue entre um e outro e lhes declare os estatutos de Deus e as suas leis. 
17 O sogro de Moisés, porém, lhe disse: Não é bom o que fazes.  
18 Totalmente desfalecerás, assim tu como este povo que está contigo; porque este negócio é mui difícil para ti; tu só não o podes fazer
 19 Ouve agora a minha voz; eu te aconselharei, e Deus será contigo. Sê tu pelo povo diante de Deus e leva tu as coisas a Deus;  
20 e declara-lhes os estatutos e as leis e faze-lhes saber o caminho em que devem andar e a obra que devem fazer.  
21 E tu, dentre todo o povo, procura homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza; e põe-nos sobre eles por maiorais de mil, maiorais de cem, maiorais de cinquenta e maiorais de dez;  
22 para que julguem este povo em todo o tempo, e seja que todo negócio grave tragam a ti, mas todo negócio pequeno eles o julguem; assim, a ti mesmo te aliviarás da carga, e eles a levarão contigo.  
23 Se isto fizeres, e Deus to mandar, poderás, então, subsistir; assim também todo este povo em paz virá ao seu lugar. 

Características do modelo centralizador (Ex 8):

1)      Solidão (v. 14)“porque te assentas só?”
2)      Indisponibilidade (v.13) “de manhã até a tarde”
3)      Ineficiência (v. 13): “em pé”
4)      “Personalização” da fé (v. 15) “este povo vem a mim para consultar a Deus“

Consequências de uma liderança solitária:

1)      “Não é bom o que fazes” (v. 17)
a)       Deus usa quem Ele quer e quando Ele quer
b)       Deus usa nossas habilidades pessoais: Bezalel: Ex 35.30-33; a sogra de Simão: Mc 1.30; Débora: Jz 4.4-9; José: Gn 41:38-40), (I Co 10. 31).
c)       Humildade para receber críticas de fora: Deus conduz os humildes (Sl 25.9) e lhes concede graça (Pv 3.34).
2)      Fadiga, stress, exaustão e envelhecimento precoce do líder: “Totalmente desfalecerás” (v. 18)
3)      Esgotamento da congregação: “... assim tu como este povo que está contigo” (v. 18)
4)      “... este negócio é mui difícil para ti. Tu só não o podes fazer.” (v. 18)

II - Mudando para um sistema de liderança descentralizado

Passos para a adoção de uma liderança compartilhada

1)      Busca de orientação: “Ouve agora a minha voz, eu te aconselharei, e Deus será contigo” (v. 19)
“... com muitos conselheiros se obtém a vitória” (Pv 24.6 NVI)
2)      Fazer indiretamente e interceder: “Sê tu pelo povo diante de Deus” (v. 19)
 “O líder que faz tudo está dizendo que ninguém pode fazer o que ele faz, mas isto não é verdade”[1].
3)      Ensinar, orientar e treinar: “... declara-lhes tu os estatutos e as leis e faze-lhes saber o caminho em que devem andar e a obra que devem fazer” (v. 20)
a)        “... declara-lhes os estatutos e as leis...”: (Mt 28.30)
b)      “... faze-lhes saber o caminho em que devem andar...”:
c)       “... e a obra que devem fazer”: “ato de delegação”. 1) quem delega; 2) quem recebe a delegação; 3) a tarefa delegada; e 4) o prazo da delegação.

4)      Formar uma equipe eficaz: “E tu, dentre todo o povo procura homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza...” (v. 21)
a)       Capazes
b)       Tementes a Deus: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria...” (Pv. 9.10). “Nem sempre pessoas com perfil de liderança temem a Deus[2].
c)       Homens de verdade: (I Tm 4.2).
d)       Que aborreçam a avareza: (Jo 27.8; Ef 5.3)

Benefícios de uma liderança compartilhada

1)    Saúde física, espiritual e mental do líder “assim, a ti mesmo te aliviarás da carga e eles a levarão contigo... poderás, então, subsistir” (v. 22, 23): “Sozinho, ninguém é capaz de cuidar do rebanho do Senhor[3].
2)    Liderança mais eficiente (processo) e mais eficaz (resultado):
a)     maior abrangência da administração e atendimento pleno das necessidades do grupo “para que julguem esse povo em todo o tempo” (v. 22)
b)     sistema de hierarquia “põe-nos sobre eles por chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez” (v. 21);“a submissão é melhor do que a gordura de carneiros” (I Sm 15:22 NVI).
c)     especialização das funções segundo habilidades “toda causa grave trarão a ti, mas toda causa pequena eles mesmos julgarão” (v. 22)
3)    Tranquilidade para os liderados “todo este povo tornará em paz ao seu lugar” (v. 23)

III – Um gestor cristão eficiente

Características pessoais

1)    Segurança: os liderados esperam de seu líder que tome decisões com segurança e que lhes transmita a segurança necessária para que exerçam as atividades de que forem incumbidos. Um líder que ora e busca orientação de Deus não tem porque sentir-se ou agir de forma insegura, pois como uma casa construída sobre a rocha, não pode ser abalado, pois suas decisões e atitudes são direcionadas por Deus (Mt 7.24-29).
2)    Confiança: esta característica anda de mãos dadas com a anterior. Por sentir-se seguro, o líder age de forma confiante e transmite confiança aos seus liderados. Ele demonstra que confia em Deus e age com base nesse sentimento. Não se trata da confiança no sentido secular, “confiar em si mesmo”. Trata-se de confiar em Deus e demonstrá-lo com sua postura e suas atitudes. Quem confia no Senhor tem sucesso em seus projetos (Pv. 28-25,26). Os liderados se sentirão seguros para confiar nesse líder e agir com confiança em suas tarefas.
3)    Integridade: “íntegro” é algo que é inteiro. Integridade no serviço cristão é estar inteiramente comprometido com Deus e seus desígnios, buscando adequar todas as áreas da sua vida aos padrões divinos. Um líder íntegro é aquele que vive uma vida correta, que tem consciência da sua falibilidade, da sua humanidade, mas que combate sua natureza pecaminosa diariamente. Esse líder é responsável  e entende que seu exemplo tem influência sobre a vida de muitas pessoas.
4)    Dedicação: ao aceitar a função de líder, o cristão deve compreender que deverá reservar parte do seu tempo para atividades específicas à sua nova função. A dedicação de um líder se revela no tempo que ele está disposto a consagrar aos seus liderados. Ao lado da dedicação encontramos características como zelo, amor, vínculo e afetividade. Muitas pessoas amam, mas têm dificuldade em demonstrar afeto. Esse é um exercício necessário ao líder que quer manter seus liderados próximos de si.
5)    Controle: o líder eficiente delega, como já aprendemos. No entanto, ele não perde o controle da situação. A delegação não transfere a responsabilidade, apenas a execução. Por isso, esse líder adota ferramentas eficazes por meio das quais sempre acompanha o trabalho executado por seus liderados.

Ferramentas de controle

1) Planejamento

Grande parte dos crentes acredita que planejamento é algo que não se aplica às atividades da Igreja por serem atividades de cunho espiritual. Solano Portela, dos Colégios e Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma que uma das desculpas, no meio evangélico, para não se planejar deve-se ao fato de que

“... nos acostumamos a creditar o sucesso, ou insucesso de algo, à "vontade de Deus", ou aos ataques de Satanás, sem parar para pensar que a boa organização nada mais é do que o exercício eficaz da mordomia dos talentos, capacidades e recursos que Deus colocou em nossas mãos, para a sua glória.”

A habilidade de planejar é um dom, um talento que nos foi dado por Deus. Quando deixamos de utilizar esse talento estamos assumindo as conseqüências de nossa falta de planejamento. Como o “servo mau”, que enterrou seu talento, perderemos a oportunidade de fazer nosso tempo render em benefício da obra de Deus (Mt 25.14-30).
Deus nos dá o maior exemplo, Ele próprio planeja e executa tudo o que planeja (Is 46.9-11). Ele ensinou o povo judeu o valor do planejamento ao incumbir-lhes das Festas Sagradas e da liturgia do Templo e ensinando-os a aguardar pelo Messias. No entanto, encontramos na palavra de Deus inúmeros exemplos de líderes que estando sob a orientação de Deus, planejaram de antemão suas atitudes e por isso foram bem sucedidos. Neemias (Ne 1-2) foi orientado por Deus a conduzir a reconstrução dos muros de Jerusalém, mas nem por isso deixou de planejar suas atitudes. Ao chegar em Jerusalém ele não revelou o projeto de Deus em seu coração a ninguém, examinou a situação atual dos muros caminho por sua extensão e só depois convocou as pessoas para o trabalho, dividindo funções. Ao planejar ele levou em conta aspectos como:

a)     orientação divina e sigilo estratégico;
b)     situação inicial e fim desejado;
c)     obstáculos a serem enfrentados e estratégias para vencer esses obstáculos;
d)     oração constante, aconselhamento e acompanhamento.

A leitura de Tiago 4.13-16 pode levar muitas pessoas a acreditarem que o escritor afirma que é errado planejar.
“Ouçam agora, vocês que dizem: “Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro”.  Vocês nem sabem o que acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa.  Em vez disso, deveriam dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo”.  Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões. Toda vanglória como essa é maligna.” (Tg 4.13-16)

No entanto, o escritor não critica, aqui, o ato de planejar em si. O que o escritor condena é a pretensão humana de acreditar que está no controle de tudo e que seus planos sejam infalíveis. Se observarmos bem, veremos que a orientação do autor é de que antes de planejar, sujeitemos nossos planos à vontade de Deus, que é soberano e a quem entregamos o controle de nossas vidas. O versículo final ainda nos oferece uma lição muito importante: o líder pode planejar, sujeitando seus planos a Deus, e ter sucesso, mas não deve nunca se vangloriar de seus projetos ou do sucesso que obtiver na sua execução. Toda glória deve ser dada a Deus, porque “dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas” (Rm 11.36).
            Tiago, assim, nos mostra que se confiarmos a Deus o controle de nossa vida e se Ele nos agraciar com o dom da vida por mais um dia, “podemos e devemos planejar[4], e podemos até ter esperança de sucesso, desde que ofereçamos a Ele o crédito por todo saldo positivo. Podemos utilizar a metáfora do barco: nós não podemos controlar os ventos, mas podemos içar velas, descer velas, comandar a tripulação, dirigir o manche, optar por ir para um lado ou outro. Ou seja, Deus está no controle dos ventos, mas ele nos concede o comando do manche.
            Mas o que é planejamento? Como planejar as atividades a serem desempenhadas por um Departamento na Igreja?

Passos para um planejamento eficaz

1) Estabelecendo metas: metas são objetivos práticos. Elas devem ser escritas (literalmente), pois quando estão na mente permanecem nebulosas. Ao colocar as metas no papel, o líder deve observar se elas deixam claro o resultado final que se espera. Por exemplo: “apresentar 5 jovens, novos convertidas para o batismo de 31 de dezembro de 2014”.

2) Planejando ações: Ao planejar as ações orientadas para o alcance dessa meta, o líder deve escrever passos práticos que respondam à seguinte pergunta “o que eu e meus liderados poderíamos fazer com nossas mãos e pés para alcançar essa meta?”. Ao responder a essa pergunta, o planejamento deve deixar bem claro como tais ações serão empreendidas (passos práticos), por quem (responsáveis) e quando (prazos delimitados).

3) Revisando: o planejamento deve conter previsão de datas, anteriores a cada evento, em que os responsáveis deverão revisar se todas as medidas relacionadas àquele evento já foram tomadas. Uma boa forma de acompanhar essas datas é inserindo-as, junto com as datas dos eventos planejados, em um calendário eletrônico como o do Google, que envia alertas no celular ou no e-mail quando a data se aproxima. Por exemplo:

Os jovens têm como meta “apresentar 5 jovens, novos convertidas para o batismo de 31 de dezembro de 20..”. Uma das ações para alcançar essa meta é oferecer um evento evangelístico dos jovens para familiares não crentes. O líder definiu a data de 10/04/.. para esse evento e a equipe responsável pelo evento. A equipe será composta por 3 grupos menores: um grupo de intercessão, um grupo responsável pela alimentação e um grupo responsável pela liturgia. No dia 10/02 esse equipe pode se reunir para estabelecer local, liturgia (palavra, louvor, apelo), cardápio, modo de aquisição dos alimentos (doação, compra), material descartável, equipe de cantina e de garçons, convites e divulgação. No dia 10/03 a equipe se reúne novamente para verificar se a reserva do local está ok, se as pessoas que vão doar já foram avisadas, se o material descartável já foi comprado e para iniciar a entrega de convites pessoais e se já foi formada a equipe de cantina e de garçons. No dia 1/04 pode haver uma última reunião de verificação, em que será definido por exemplo, se serão comprados itens que não foram doados.

4) Feedback ou Retroalimentação: uma das ferramentas de controle do líder é o feedback. O líder que delega não deve agir como se tivesse se livrado de uma responsabilidade. A responsabilidade ainda é dele, por isso deve sempre solicitar feedback de seus delegados. Solicitar feedback é conversar com os liderados e se informar a respeito do andamento das atividades, de forma prática. Não é necessário sobrecarregar seus liderados com inúmeras reuniões em que muitas vezes se perde o foco do assunto. O líder pode se beneficiar de soluções tecnológicas como o e-mail e as mensagens de celular para se manter sempre em contato com seus liderados.


CONCLUSÃO

            Os líderes não podem agir como se fossem o centro da obra de Deus, pois essa posição já está ocupada pelo Senhor. Deus é o dono da obra, os líderes são “despenseiros”, encarregados da administração e distribuição e, “ora, o que se requer desses encarregados [despenseiros] é que sejam fiéis [dignos de confiança do seu Senhor]” (I Co 4.2 NVI/AMP). Um líder que delega entende que, desde que orientado por Deus, a expansão da obra é inevitável, pois o raio de alcance é tão grande quanto a capacidade desse líder de delegar sem, contudo, perder o contato com seus delegados. Esse contato é garantido por meio da manutenção da hierarquia, um conceito que jamais poderá ser abandonado dentro da obra de Deus, pois é inerente à vida cristã. Jesus é o maior exemplo que poderíamos ter: ele tornou possível a expansão do evangelho por meio da delegação de um ministério aos seus discípulos (Lc 10.1-12) e ainda orientou seus discípulos a repetir o processo, fazendo novos discípulos (Mt 28.19). Foi dessa forma que a Palavra de Deus chegou até nós.
            Ao mesmo tempo, um líder eficiente não acredita que tem o controle do amanhã. Ele compreende que cada dia é um presente de Deus. Por isso, ele oferece a Deus um planejamento para que nenhum desses dias seja desperdiçado, para que cada dia a obra de Deus se expanda mais e alcance mais vidas. Depois de planejar ele exerce suas atividades com segurança e confiança sempre procurando acompanhar seus liderados com amor e dedicação, demonstrando por meio de atitudes que ama a Deus, ao apascentar suas ovelhas (Jo 21.15-17).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA SAGRADA. Versões: Nova Versão Internacional (NVI), Amplified Bible (AMP), Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), Almeida Revista e Corrigida (ARC). Disponíveis em <https://www.bible.com/pt-BR>
VIEIRA, Rev. Samuel. VELHAS E NOVAS BASES DE LIDERANÇA. 2009. Disponível em ipbanapolis.org.br>
PORTELA, Solano. Fundamentos Bíblicos para estabelecer uma cultura de planejamento. Colégios e Universidade Presbiteriana Mackenzie. Sem informação de data. Disponível em < http://www.aecep.org.br/_downloads/FUNDAMENTOS_BIBLICOS_PARA_ESTABELECER_UMA_CULTURA_DE_PLANEJAMENTOSolano.pdf>
Créditos da imagem: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Foster_Bible_Pictures_0067-1_Moses_Is_Holding_Up_His_Rod.jpg?uselang=pt-br

[1] Rev. Samuel Vieira

[2] Idem. Ibdem.

[3] GILBERTO, Pr. Antônio. LIÇÕES BÍBLICAS, 1o/2014. Rio de Janeiro: CPAD, 2014, p. 59,60.


[4] PORTELA, Solano. Fundamentos Bíblicos para estabelecer uma cultura de planejamento. Colégios e Universidade Presbiteriana Mackenzie. Sem informação de data.

La parole de la nuit dans "La Rue Cases-Nègres", de Joseph Zobel

  La littérature des Antilles est complemment differente de tout ce que j’ai eu l’opportunité de lire dans ma vie. Je suis parti...