terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O Uraguay: uma epopéia brasileira





O Uraguai.jpg



Por Lorena Brandizzi
                                                                                                             

                A natureza épica do poema de José Basílio da Gama, intitulado O Uraguay, tem sido assunto para muita discussão na teoria literária. Serão apresentados a seguir alguns dos argumentos que, de certa forma, servem de base para a negação do status de epopéia à obra de Basílio, e alguns dos pontos explicitados por outros autores que levam a um questionamento do caráter anti-épico do poema.
Basílio da Gama foge à tradição épica ao iniciar seu poema O Uraguay com a descrição do que restou de uma batalha há pouco terminada. Ao aplicar a técnica da antecipação, o autor atrai a atenção do leitor para o desenrolar do texto, uma vez que a descrição inicial não oferece respostas, mas apenas uma fotografia sombria do resultado de uma guerra.

Fumám ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos, e impuros,
Em que ondeam cadáveres despidos,
Pastos de corvos. Duram inda nos valles
O rouco som da irada artilheria.

            Os versos que se seguem àqueles cinco primeiros trazem a invocação e a proposição, as quais deveriam abrir o poema, como é comum na poesia épica. Na invocação, o aedo pede à Musa que juntamente com ele celebre aquele “que o povo rude subjugou do Uraguay”.

Musa, honremos o heróe, que o povo rude
Subjugou do Uraguay, e no seu sangue
Dos decretos reaes lavou a affronta.
Ai! Tanto custas, ambição de império!

            Percebe-se que tais versos não trazem a grandiloqüência característica das grandes epopéias e finalizar a invocação com um lamento e uma crítica à ambição de poder é algo que destoa da tradição épica.
            A abertura desse poema de certa forma sinaliza aspectos da composição do poema em si. Durante toda a extensão da obra elementos novos e elementos tradicionais coexistirão. Basílio da Gama construiu seu poema conjugando aspectos épicos, líricos, trágicos e satíricos, e não procurou distanciar-se do evento, como se exige de um autor épico, pelo contrário, suas intervenções são claras e freqüentes. Outros aspectos que caracterizam o poema são, segundo Vania Pinheiro Chaves (2000, p.75) sua plasticidade, musicalidade e simplicidade de expressão. São claras também no poema as manifestações de apreço ou simpatia pelos vencidos, por parte do autor.
            Quanto ao afastamento de O Uraguay  de um status de epopéia, Afrânio Peixoto, na Nota Preliminar à Ediçao de 1941 de O Uraguay pela Academia Brasileira de Letras, define o poema como mal composto quanto à técnica literária. Ele diz ainda que não há nexo no enredo e exemplifica sua afirmação lembrando a figura do Padre Balda que, sendo o chefe moral e militar do índios, sem motivo algum prende Cacambo e logo depois causa sua morte oferecendo-lhe um “licor desconhecido” (Canto III). Peixoto questiona se o motivo por trás de tal incompreensível ato seria possíveis ciúmes de Lindóia por parte do Padre. Logo depois ele lembra que o referido Padre nenhum ressentimento teve da morte da jovem e nem o sepultamento de seu corpo permitiu que fosse feito (Canto IV).

Indifferente admira o caso acerbo
Da estranha novidade alli trazido
O duro Balda; e os índios, que se achavam
Corre co` a vista e os ânimos observa.
Quanto póde o temor! Seccou-se a um tempo
Em mais de um rosto o pranto, e em mais de um peito
Morrêram suffocados os suspiros.
Ficou desamparada na espessura,
E exposta ás feras e ás famintas aves,
Sem que alguém se atrevesse a honrar seu corpo
De poucas flores e piedosa terra.

            No entanto, quanto a esse argumento cabe uma análise mais atenciosa do enredo. Na batalha descrita no Canto II, logo após a conversa entre o general Gomes Freire e os índios Cacambo e Cepé, o autor apresenta a personagem de Baldetta, como sendo um jovem “presumido e nescio”. Diz ainda que tal índio, de alguma forma, era favorecido pelos santos padres.

Impertinente, e de família escura,
Mas que tinha o favor dos santos padres.
Contam, não sei se é certo, que o tivera
A estéril mãi por orações de Balda.
Chamaram-no Baldetta por memória.
           
Na nota do próprio autor ao verso que apresenta o nome do índio, Basílio lança com tom de ironia a possibilidade de que Baldetta fosse filho do próprio Padre.

“Os jesuitas da America não eram tão escrupulosos como affectavam ser os da Europa. Era bem fácil distinguir nas aldeias as Indias, que gozavam do favor dos padres. Da mesma sorte se distinguiam muito bem, entre os outros, os rapazes da família. Na Asia era o mesmo. Leia-se a carta do bispo Nankim a Benedicto XIV.”

            Acontece que no início do Canto IV, estando já morto Cacambo, o Padre Balda intenta dar Lindóia por esposa ao “seu Baldetta”. O que se percebe é que a atitude do Padre ao prender e matar Cacambo não teria sido inteiramente desmotivada como sugere Afrânio Peixoto.
            Os argumentos de Peixoto, no entanto, não se resumem ao episódio da morte de Cacambo. Ele ainda afirma que quanto à ficção “a matéria narrada não daria um conto medíocre (op. cit., p. XXIX) e quanto aos combates, “não há nenhum vislumbre de epopéia”. Para ele o êxito que O Uraguay alcançou foi anti-jesuítico.
            Por outro lado, o próprio Afrânio Peixoto cita o elogio de Ameida Garret como “a mais bela condecoração (...) de O Uraguay” (op. cit. p. XXXV). Garret elogia as descrições das cenas naturais, a linguagem utilizada pelo autor que empregou “versos naturais sem ser prosaicos”, ao mesmo tempo em que soube se utilizar de versos sublimes nos momentos adequados. Garret também lamenta a pequena extensão e a falta do tom grandiloqüente do poema e salienta que se o poeta tivesse sido mais cuidadoso em relação a esses fatores, talvez algumas imperfeições latentes desapareceriam[1].
            Antônio Cândido diz ser O Uraguay uma obra disfarçada de epopéia, pois quase tudo o que traz a afastaria daquele gênero. Ele lembra que o autor quebrou a norma da distância épica ao escolher um tema reduzido e atual. Outros aspectos salientados por Cândido são: a extensão do poema, pequena quando comparada ao que exigia de uma epopéia e os episódios burlescos e satíricos, que segundo ele apenas aproximam a obra do poema herói-cômico, a “antiepopéia deliberada”[2].
            José Veríssimo partilha da opinião de que a proximidade no tempo do evento narrado prejudicou o trabalho do autor e lhe dificultou “vestir” sua obra de roupagens épicas.

Pouco adequado a um poema épico segundo os moldes clássicos era o assumpto de Basilio da Gama (...). Tal thema, sobre insufficiente e ingrato, parece daria apenas um episodio em poema de maior vulto. Faltava ao poeta o recuo necessário no tempo para uma idealização do acontecimento cujos actores ainda viviam ou apenas há pouco tinham morrido. Havia, pois, a epopéia de ser uma simples narração histórica em verso de sucesso recentíssimo, a que as circunstâncias políticas davam desmesurado relevo (...). Tinha este [o poema] fatalmente, pelas condições da sua composição, de lhe sair limitado no tempo e no espaço, e, sobretudo, despido das feições e roupagens propriamente épicas.[3]

            Quanto à norma da distância épica há teóricos que discordam do ponto de vista de Antônio Cândido e de José Veríssimo. Vânia Pinheiro Chaves (2000, p. 49) reconhece que O Uraguay não é aceito como epopéia por grande parte dos críticos, diz a autora: “Definir O Uraguay como ‘epopéia brasílica’ é assumir posição contrária à de uma parcela significativa de seus receptores, que, com diversos argumentos, lhe têm recusado quer o caráter brasileiro, quer a qualificação de epopéia ou a própria natureza de poesia épica.”
            Vânia, no entanto, comenta a respeito de vários aspectos que têm sido utilizados como argumentos a favor do caráter “anti-épico” de O Uraguay.  Quanto à distância épica ela assume que a escolha por Basílio de um tema dele tão contemporâneo diverge da opção feita pela maior parte dos autores épicos. No entanto, ela argumenta que na Antiguidade greco-latina as epopéias eram produzidas por aedos cujo conhecimento do fato narrado costumava ser mais ou menos direto, sendo, portanto, a criação da obra contemporânea dos eventos narrados. A autora ainda exemplifica seu argumento citando Farsália, a obra com a qual Lucano relatou a luta entre César e Pompeu, e as curtas epopéias de Claudiano a respeito dos feitos de heróis coevos. A autora ainda defende a escolha do tema atual citando Os Lusíadas e La Araucana, exemplos europeus de epopéias com temas mais ou menos contemporâneos de seus autores.
            Vânia ainda cita La Henriade, de Voltaire[4], na qual o autor recomenda a escolha de um assunto moderno. Vânia defende que “sobrepõe-se à multiplicidade de formas um modelo típico de epopéia clássica”, ela sugere traços que podem não estar presentes em sua totalidade nos textos concretos. Entre esses traços ela inclui:
-         “Ação em geral de natureza guerreira e de importância nacional;”
-         “Personagens configurando seres excepcionais por seu nascimento, valor guerreiro, patriotismo, sentimento religioso, por dotes intelectuais ou virtudes morais (modelos de comportamento humano de determinada época e sociedade);”
-         “Início in media res;”
-         “Propósito de intervenção social, política ou religiosa.”[5]
Percebe-se que esses traços estão presentes em O Uraguay. O caráter bélico da ação descrita está claro na descrição dos combates. Já no Canto II o poeta descreve o ambiente da guerra:
Fez a trombeta o som da guerra. Ouviram
Aqueles montes pela vez primeira
O som da caixa portuguesa; e viram
Pela primeira vez aquelles ares
Desenroladas as reaes bandeiras.

Gomes Freire de Andrade é apresentado como a personagem central da história. Nas notas Complementares de Rodolfo Garcia à Edição Comemorativa do Segundo Centenário anotada por este e por Afrânio Peixoto e Osvaldo Braga. Garcia comenta a nota de Basilio ao verso que apresenta Gomes Freire como “o grande Andrade”. Garcia diz que Gomes Freire foi nomeado primeiro e principal comissário régio para negociar o Tratado de Limites da América do Sul e que em fevereiro de 1752 ele deixou o Rio de Janeiro em direção ao local do conflito. Garcia ainda confirma a posição de herói conferida a Gomes Freire por Basilio:

É assas conhecida a campanha que foi obrigado a empreender, e que a excessiva imaginação do poeta erigiu em epopéia, com Gomes Freire por herói[6]
           
            Além de seus dotes intelectuais, Basilio apresenta Gomes Freire como um herói misericordioso. Quando o general alertado por Menezes sobre a grande quantidade de índios que possivelmente enfrentarão na “larga e vantajosa collina” e este sugere que somente armas poderosas poderão sujeita-los, Gomes Freire demonstra a sua predisposição a um contato menos violento.

Torna-lhe o general: - Tentem-se os meios
De brandura e de amor; se isto não basta,
Farei a meu prazer o ultimo esforço.      

O início in media res é outro traço claro já desde o primeiro canto, quando Basilio inicia o poema descrevendo o ambiente de uma batalha já terminada, mas que ainda conserva “o rouco som da irada artilheria”.
Quanto ao propósito da obra, o que se percebe é um caráter preponderantemente político, pois como afirmado por Afrânio Peixoto, o êxito do poema de Basílio foi anti-jesuítico. Vânia Pinheiro Chaves explicita bem esse propósito político de O Uraguay:

“Escrito e publicado num período em que a Companhia de Jesus era objeto de acerba discussão em toda a Europa e até no Brasil, O Uraguay entra, aberta e decididamente, na campanha contra os inacianos; esta é, aliás, a faceta mais ostensiva de sua ideologia e a que mais cedo é identificada por seus receptores. A ‘antipatia’ pelos jesuítas está largamente formulada e se apresenta de diversos modos nos vários planos da construção de O Uraguay. O ataque à ordem criada por Inácio de Loiola é o objeto principal das notas que acompanham o poema e está metaforicamente construído quer na epígrafe, quer no soneto que o precedem (...)”[7]

            Dessa forma, é possível distinguir alguns dos traços que caracterizam um modelo de epopéia clássica que parecem sobrepor-se às múltiplas realizações desse gênero literário. Cabe salientar que esses não são os únicos traços que garantem à obra de Basílio uma aproximação do modelo épico. Longe de comportar todos os argumentos a favor ou mesmo contra a caracterização do poema basiliano, o presente ensaio apenas explicitou alguns dos pontos citados por autores que defendem a natureza épica de O Uraguay.





BIBLIOGRAFIA


CÂNDIDO, Antônio. “A dois séculos d`O Uraguay” in Vários Escritos. São Paulo, 1995, p. 134.

CHAVES, Vânia Pinheiro. “O despertar de um gênio brasileiro: Uma leitura de O Uraguay de José Basílio da Gama”. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2000, p. 57.

GARCIA, Rodolfo. “Notas Complementares às anotações do poeta ao seu poema”, in
O Uraguay - Edicao Comemorativa do Segundo Centenário, Publicações da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 1941, p. 114.

GARRET, Almeida, “Bosquejo da história da poesia e língua portuguesa” in Obras, vol. XXIV, Lisboa, 1877, pp. 104-105.

VERÍSSIMO, José. “Basílio da Gama: Sua vida e suas obras” in Obras Poéticas de José Basílio da Gama. Rio de Janeiro: Editora Livraria Garnier, 1971, p.68.

VOLTAIRE, F.M.A. “Idée de La Henriade”, 1840.

Imagem: Disponível em . Acesso em 14/02/2017.


[1] Almeida Garret – Bosquejo da história da poesia e língua portuguesa, in Obras, vol. XXIV, Lisboa, 1877, pp. 104-105.
[2] CÂNDIDO, Antônio. “A dois séculos d`O Uraguay” in Vários Escritos. São Paulo, 1995, p. 134.
[3] VERÍSSIMO, José. “Basílio da Gama: Sua vida e suas obras” in Obras Poéticas de José Basílio da Gama. Rio de Janeiro: Editora Livraria Garnier, 1971, p.68.
[4] VOLTAIRE, F.M.A. “Idée de La Henriade”, 1840.
[5] CHAVES, Vânia Pinheiro. “O despertar de um gênio brasileiro: Uma leitura de O Uraguay de José Basílio da Gama”. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2000, p. 57.
[6] GARCIA, Rodolfo. “Notas Complementares às anotações do poeta ao seu poema”, in
 O Uraguay - Edicao Comemorativa do Segundo Centenário, Publicações da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 1941, p. 114.
[7] CHAVES, Vânia Pinheiro. “O despertar de um gênio brasileiro: Uma leitura de O Uraguay de José Basílio da Gama”. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2000, p. 222.

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