A mídia e a construção da identidade nacional do cidadão brasileiro

 

  INTRODUÇÃO

                         O acesso à informação por intermédio dos meios de comunicação de massa é visto, por grande parte da população, como o meio mais eficaz e rápido de se informar a respeito de problemas da atualidade, política, segurança pública, entre outros. No entanto, a sociedade brasileira não tem uma cultura crítica e recebe de forma passiva grande parte das informações trazidas pelos noticiários e programas televisivos.
            Dessa forma, em momentos de crise, a sociedade passa a se apoiar quase que exclusivamente nos pontos de vista e abordagens apresentados de forma recorrente pela televisão e pelos jornais e revistas de grande circulação. Um dos riscos apresentados por essa tendência é o condicionamento ideológico da população na direção apontada pela mídia e o seu consequente condicionamento comportamental. Em tempos de crise, a mídia tende a focar em assuntos polêmicos, mais passíveis de alcançar audiência, muitas vezes sem se abster de apresentar um posicionamento ideológico específico, seja pelo enfoque ou recorte, seja pela expressão explícita de opiniões em programas mais voltados para discussões políticas.
            Há uma necessidade urgente de conscientização da população a respeito dos mecanismos de condicionamento da mídia e dos processos subjacentes à construção de significados por parte dos meios de comunicação de massa. O presente artigo tem como objetivo apresentar uma hipótese de resposta para a questão: até que ponto a mídia pode ser responsabilizada pela fragmentação da comunidade nacional e pela formação de uma identidade nacional impregnada pela corrupção, pela impotência e pela escassez?
            No primeiro tópico abordaremos o conceito de identidade nacional e o papel da mídia no processo de formação da identidade subjetiva, ponto a ser retomado no penúltimo tópico. No segundo tópico, discutiremos alguns mecanismos de condicionamento econômico da política para, em seguida, voltarmos nossa atenção para a mídia e sua relação com fenômenos de natureza política. No terceiro tópico, analisaremos a relação da sociedade com a mídia a partir do fenômeno Framing Effect e do processo de condicionamento comportamental da população a partir da construção de uma consciência política. Ainda nesse tópico apresentaremos a hipótese de que a mídia participa de forma ativa do fenômeno de fragmentação da comunidade nacional por meio da influência negativa que exerce no processo de construção da identidade nacional, uma identidade maculada pela corrupção, pela impotência e pela escassez. No quarto tópico e na conclusão buscaremos apresentar um caminho possível para a reconstrução de uma identidade nacional que venha a caracterizar-se pela autonomia, pela independência e pela participação política ativa: o caminho da educação.

1 IDENTIDADE NACIONAL


            A discussão a respeito do conceito de identidade nacional é antiga. Muitos autores questionam a validade desse conceito. No entanto, há um certo consenso a respeito da natureza social da formação identitária do indivíduo. Em seu artigo “Literatura e Identidade Nacional”, Zilá Bernd procurou “estabelecer as dominantes literárias (convenções dominantes) do processo que vai da autonomização à construção de uma identidade nacional” (BERND, 1992, p. 9). Apesar de se tratar de uma obra cujo enfoque predominante é a crítica literária, seu texto apresenta alguns questionamentos pertinentes para a questão aqui problematizada. A autora explica que o desenrolar do seu trabalho dependia originariamente de uma reflexão a respeito do próprio conceito de identidade. Para tanto, Bernd recorre a teóricos externos à área da Literatura. Essa estratégia enriquece profundamente seu trabalho. A autora assume o caráter eminentemente social do processo de construção da identidade, tanto individual quanto coletiva.

(...) a questão da identidade nacional será encarada como um dos pólos de um processo dialético; portanto, como ‘meio’ indispensável para entrar em relação com o outro, e não como um ‘fim’ em si mesmo. A busca da identidade deve ser vista como processo, em permanente movimento de descolamento, como travessia, como uma formação descontínua que se constrói através de sucessivos processos de reterritoriazação e desterritorização, entendendo-se a noção de território (DELEUZE & GUATTARI, 1977) como o conjunto de representações que um indivíduo ou um grupo tem de si próprio. (BERND, 1992, p. 10).

            Fundamentando-se na definição de Lévi-Strauss, Bernd afirma que não há possibilidade de um indivíduo definir sua identidade sem fazer referência ao outro. Segundo a autora, a exclusão do outro levaria a uma “visão especular”, ou seja, apenas à replicação do próprio eu.

Lévi-Strauss (1977) definiu identidade como uma entidade abstrata, sem existência real, mas indispensável como ponto de referência. (...) A identidade é um conceito que não pode afastar-se do de alteridade: a identidade que nega o outro, permanece no mesmo (idem). Excluir o outro leva à visão especular que é redutora: é impossível conceber o ser fora das relações que o ligam ao outro. (BERND, 1992, p. 15) (grifo nosso).

Aplicando os conceitos até aqui apresentados, podemos fazer uma referência ao poder da mídia no processo de construção da identidade nacional. A busca pelo conhecimento e pela informação sempre caracterizou o ser humano e a formação de uma identidade individual passa necessariamente, como vimos, pela construção de um conhecimento de mundo e do lugar do eu nesse mundo. Dessa forma, a curiosidade representa uma ferramenta bastante eficaz no processo de construção dessa identidade. Ela é uma das características mais marcantes que possuímos e aquela que tem nos levado a evoluir ao longo da história, buscando a satisfação de necessidades e a superação de obstáculos naturais.
Dentro desse aspecto, a urgência do ser humano em estar informado representa uma estratégia para a manutenção de uma identidade subjetiva coerente, sob o ponto de vista da modernidade. Sendo assim, a busca de informações nos meios de comunicação de massa representa uma tentativa de sanar essa necessidade de atualização, tão central para a manutenção de um senso de pertencimento por parte do individuo. Bernd aborda esse aspecto da busca do conhecimento de si e faz menção a uma tensão que está na origem da formação da consciência individual:

Trata-se, pois de apreender a identidade como uma entidade que se constrói simbolicamente no próprio processo de sua determinação. A consciência de si toma sua forma na tensão entre o olhar sobre si próprio – visão do espelho, incompleta – e o olhar do outro ou do outro de si mesmo – visão complementar. (BERND, 1992, p. 15).

É inegável que essa “visão complementar”, esse “olhar do outro”, só é acessível por meio das relações sociais. É no contato social que o ser humano tem acesso a esse ponto de vista externo, tão necessário para a construção da consciência de si. Sem essa tensão entre o olhar sobre si próprio e o olho do outro, a imagem que o indivíduo forma de si mesmo é incompleta e, consequentemente, insuficiente para o sucesso daquele processo de determinação a que Bernd faz referência. Como apontado anteriormente, a busca desse ponto de vista externo nos meios de comunicação de massa já se tornou um hábito social. Por meio desse contato com a mídia, o indivíduo passa a interpretar sua realidade sob perspectivas diversas, sob ângulos que anteriormente desconhecia. A partir desse novo conhecimento, a sua visão sobre si mesmo, sobre sua história, sobre seu lugar no mundo é irreversivelmente alterada.
A respeito da persistência desse comportamento caracterizado pela busca de informação nos meios de comunicação de massa, podemos recorrer a Castro (2009) e sua hipótese a respeito da satisfação de necessidades. Segundo Castro (2009), o ser humano não se basta a si mesmo, mas “tem necessidades biopsíquicas e socioculturais, além de outras complementares, delas decorrentes para manter-se vivo e coexistir com os semelhantes em dada configuração geotemporal” (pg. 91). Castro explica que, ao passar por uma necessidade, o homem sofre um desequilíbrio que causa uma tensão. A partir dessa tensão cria-se uma tendência à ação, com vistas à satisfação daquela necessidade primeira. A crença na eficácia do comportamento adotado é difundida dentro dos grupos por meio da cultura, levando à persistência do comportamento, à sua institucionalização. A hipótese de Castro parece bastante adequada para a difusão do hábito moderno da busca pela informação nos meios de comunicação de massa.
            A questão a ser respondida diz respeito às condições em que a mídia passa a influenciar a construção da identidade subjetiva dos indivíduos e como essa influência se expande a ponto de alcançar a formação da própria identidade nacional de um país.


2 A MÍDIA E AS REPRESENTACÕES SOCIOCULTURAIS


            A busca pelas respostas a essas questões passa pela análise do discurso midiático e dos seus processos de condicionamento. Segundo Charaudeau (2006), o indivíduo entra em contato com diversas representações da realidade que acabam por construir em sua mente um sistema de imagens mentais que o indivíduo passa a interpretar como a própria realidade. Esse processo de interpretação da representação como realidade evolui a tal ponto que o indivíduo passa a pautar nele o seu discurso e seus valores.

As representações, ao construírem uma organização do real através de imagens mentais transpostas em discurso ou em outras manifestações comportamentais dos indivíduos que vivem em sociedade, estão incluídas no real, ou mesmo dadas como se fossem o próprio real. Elas se baseiam na observação empírica das trocas sociais e fabricam um discurso de justificativa dessas trocas, produzindo-se um sistema de valores que se erige em norma de referência. Assim é elaborada uma certa categorização social do real, a qual revela não só a relação de “desejabilidade” que o grupo entretém com sua experiência do cotidiano, como também o tipo de comentário de inteligibilidade do real que o caracteriza – uma espécie de  metadiscurso revelador de seu posicionamento. Em resumo, as representações apontam para um desejo social, produzem normas e revelam sistemas e valores. (CHARAUDEAU, 2006, p. 47) (grifo nosso).

            O problema de tal conjuntura reside no fato de que o discurso midiático não é neutro: há condicionamentos econômicos e políticos que influem sobre a informação ali veiculada. Quando o indivíduo não tem consciência desses condicionamentos, aquelas “imagens mentais” a que Charaudeau faz referência se tornam projeções distorcidas da realidade. Retomando o ponto apresentado no tópico anterior, a respeito da construção da consciência sobre si, podemos compreender o risco que aqui se apresenta: o indivíduo constrói uma imagem distorcida de si mesmo, a partir daquele referencial enviesado construído pela mídia. 

2.1 O CONDICIONAMENTO ECONÔMICO DA MÍDIA (CULTURA DOS MEDIA)


            Alguns autores acreditam que, com o advento do capitalismo, a economia se tornou o fator central das relações em sociedade, condicionando grande parte dos processos de interação social. Como apontado anteriormente, o acesso aos meios de comunicação de massa se tornou um hábito estabelecido e isso não passou em branco aos olhos do mercado. Dessa forma, a compreensão do viés comercial das mensagens midiáticas se torna necessária para que o indivíduo se torne capaz de posicionar-se criticamente em sua relação de interlocutor com a mídia.
            João Pissara Esteves (2000), ao tratar da questão da identidade e da cultura dos media, alerta para o fato de que a lógica comercial se apresenta como pano de fundo para toda interação entre a mídia e seus “consumidores”. Citando Kellner (1995)[1], o autor salienta que a pós-modernidade não trouxe um rompimento com o capital e com a economia política, ao contrário, essa nova ordem social trouxe consigo uma lógica inescapável: a lógica do dinheiro.

Seja através de um consumo diferenciado (pela publicidade, as relações públicas ou o marketing), seja através de um consumo direto (as mensagens mediáticas como um “produto” em si e as audiências formatadas como “clientelas”), as formas pós-modernas que proliferam no interior dos media não deixaram de obedecer a uma lógica comercial inteiramente convencional: os registros culturais em geral dos media, independentemente do seu estilo (pós-moderno, moderno ou tradicional, isoladamente ou em combinação), são ordenados por uma estratégia global dominante – a diferenciação dos públicos e a segmentação do mercado como processos mais eficazes de homogeneização geral, com estritos fins de lucro. (ESTEVES, 2000, p. 25) (grifo nosso).

            Segundo Martin e Schumann (1999), o fator econômico se tornou maior até mesmo que o fator político. Dessa forma, muitas questões que parecem políticas aos olhos do público em geral têm, por pano de fundo, motivações intrinsecamente econômicas. É interessante notar a visão dos autores a respeito da natureza unificadora do fator econômico. Apesar de o mundo estar cada vez menor, cada vez mais unificado comercialmente, do ponto de vista político, ele se mostra irremediavelmente fragmentado. Para os autores, economia e política seguem ritmos diferenciados e o descompasso entre elas tem gerado uma tensão que está na base de grandes problemas sociais.

O maior problema da nossa geração consiste em que os fatos econômicos superam tanto os políticos que economia e política não conseguem manter o mesmo ritmo. Economicamente, o mundo tornou-se uma unidade comercial. Politicamente, continuou fragmentado. As tensões entre os dois desenvolvimentos opostos provocaram um abalo em cadeia na vida societária da humanidade. (MARTIN, SCHUMANN, 1999, p. 21).

            Percebe-se que a questão da fragmentação política das comunidades nacionais é central para a discussão da própria fragmentação da personalidade individual dos cidadãos. A noção de cidadania, por sua vez, está na base da participação política, do auto-reconhecimento do indivíduo enquanto parte integrante da sociedade, capaz de influenciar sua própria realidade, alterá-la, crescer e se desenvolver. E no cerne dessa questão encontra-se o problema da fragmentação política. Como veremos a seguir, a expansão do sistema capitalista e a proliferação da cultura do consumo têm desempenhado um papel crucial no retrocesso que a cidadania tem sofrido na sociedade brasileira.

2.2 A QUESTÃO DA CIDADANIA

José Murilo de Carvalho aborda de forma bastante clara o “problema da cidadania” em seu livro “Cidadania no Brasil: O longo caminho” (2009). Carvalho traz uma reflexão extremamente pertinente a respeito dos caminhos percorridos pela democracia brasileira rumo à conquista da cidadania. O autor explica que o fim da ditadura militar, em 1985, criou grandes expectativas em relação aos resultados que seriam gerados pela redemocratização. No entanto, essas expectativas não foram completamente satisfeiras. Segundo Carvalho, conquistou-se a garantia da liberdade de pensamento e de manifestação e a garantia da participação pelo voto, mas ainda resta um longo caminho rumo à conquista de segurança, emprego, desenvolvimento e justiça social. Como consequência, tem-se o desgaste das instituições democráticas já implementadas.
            Para Carvalho, o que está na origem desse descompasso é o “problema da cidadania”. O autor expliqua que “o exercício de certos direitos, como a liberdade de pensamento e o voto, não gera automaticamente o gozo de outros, como  a segurança e o emprego” (CARVALHO, 2009, p. 8). Apesar de uma cidadania plena, que alcance todas essas garantias, ser um ideal talvez inatingível, torna-se necessária enquanto norte e parâmetro. Essa cidadania plena abarcaria direitos civis, políticos e sociais. A garantia dos direitos civis (fundamentais) dependeria de uma “justiça independente, eficiente, barata e acessível a todos” (CARVALHO, 2009, p. 9). Os direitos políticos dizem respeito à participação da sociedade em seu próprio governo. Por último, os direitos sociais vinculam-se à ideia de distribuição de riquezas e justiça social.
            Para Carvalho a cidadania tem seu desenvolvimento vinculado ao surgimento do Estado-nação, pois “a construção da cidadania tem a ver com a relação das pessoas com o Estado e com a nação. [Elas] se tornavam cidadãs à medida que passavam a se sentir parte de uma nação e de um Estado” (CARVALHO, 2009, p. 12). Nesse ponto, o autor aborda a crise do Estado-nação, inserida no contexto da internacionalização do capitalismo, dos avanços tecnológicos e da criação de blocos econômicos e políticos, que acabaram por reduzir o poder dos Estados. 

A internacionalização do sistema capitalista, iniciada há séculos mas muito acelerada pelos avanços tecnológicos recentes, e a criação de blocos econômicos e políticos têm causado uma redução do poder dos Estados e uma mudança das identidades nacionais existentes” (CARVALHO, 2009, p. 13)
           
            Dessa forma, a redução do poder do Estado e o aumento da influência de blocos e organizações internacionais tem afetado profundamente a questão dos direitos políticos. Se o Estado tem seu poder de governo diminuído, diminui também o interesse do cidadão em participar desse governo. Consequentemente, a conquista de direitos políticos, da própria participação política, deixa de ser um ideal. O que passa a ocupar essa posição de “ideal a ser perseguido” é uma questão que tentaremos responder. 


3 THE FRAMING EFFECT


3.1 O CONDICIONAMENTO COMPORTAMENTAL A PARTIR DA CONSCIÊNCIA POLÍTICA

Aqui retomamos o papel da mídia nesse cenário. Diante do condicionamento econômico dos meios de comunicação de massa a que já nos referimos, há uma tendência ao preenchimento daquela posição de ideal, que se encontra vazia. Ainda fazendo referência ao importante trabalho de Carvalho, voltamos nossa atenção para o que o autor denomina “o novo câncer que impede a constituição de uma sociedade democrática” (CARVALHO, 2009, p. 229). O autor acredita que o Brasil, devido às peculiaridades de sua formação histórica e política, ainda não sofre, tão cronicamente quanto os países europeus, por exemplo, daquela condição de esvaziamento do poder de Estado-nação. Entretanto, Carvalho não aborda uma outra questão, bastante atual e profundamente central para a discussão a que nos propomos: a questão da corrupção.
A corrupção tomou proporções assustadoras no Brasil. Não será possível abordar, aqui, de forma específica essa mazela que adoece nosso país. No entanto, é importante ressaltar que a apresentação recorrente desse tema pela mídia tem criado no brasileiro um desprezo pela sua própria nação, pelos seus representantes e pelas instituições democráticas. A representação midiática do país condiciona a interpretação que o indivíduo constrói do seu país, de seus compatriotas e, finalmente de si mesmo.  Habermas (1965)[2], reconhece a influência da mídia. Em seu artigo “Comunicação, opinião pública e poder”, o autor afirma categoricamente que “os processos de comunicação sofrem a influência dos meios de comunicação de massa, seja de modo direito, seja em maior escala através dos ‘líderes de opinão’” (HABERMAS, 1965 in COHN, 1987, p. 197). Sobre a volatilidade da opinião pública o autor afirma que:

A dificuldade que se origina disso foi observada por Landshut. Ele registra por um lado o fato de que “o lugar da opinião pública é ocupado por uma tendência indefinida e dependente de estados de espírito momentâneos. Ela é orientada nessa ou naquela direção conforme medidas e ocorrências determinadas...” (HABERMAS, 1965)[3](grifo nosso).

O desinteresse pela busca de direitos civis e políticos e o estímulo ao consumo cegam os olhos da sociedade para um problema ainda maior: a desigualdade social. Segundo Carvalho, a cultura do consumo ameaça o avanço democrático ao criar na sociedade uma valorização maior do direito ao consumo, do que dos direitos políticos. Segundo Carvalho, essa cultura dificulta a busca pela solução do problema da cidadania, impedindo que o sistema democrático resolva o grande problema da desigualdade que para o autor é a nova escravidão.
Percebe-se que há uma transferência do foco das questões políticas e sociais, para o estímulo ao consumo. Como apontamos incialmente, as representações têm a capacidade de produzir imagens mentais que passam a representar, na consciência do indivíduo, a própria realidade, condicionando seu discurso, seu sistema de valores e, como veremos agora, seu próprio comportamento. Martino (2013 apud QUEIROZ, 2015) aborda essa capacidade de condicionamento do discurso midiático e apresenta o conceito de framing effect.

A maneira conforme as informações são apresentadas pode influenciar diretamente o modo como as pessoas entendem essa informação. A mídia influi diretamente no modo de interpretação das pessoas construindo a mensagem, de modo a deixar margem para uma única maneira de interpretá-la. (MARTINO, 2013, p. 46, apud QUEIROZ, 2015, p. 5).

            A apresentação sistemática e recorrente de uma mesma mensagem acaba por influenciar de forma decisiva o comportamento dos indivíduos, que passam a adotar ideias, valores e ideais externos, fabricados e manufaturados com motivações bastante específicas: a orientação do comportamento social para o consumo e o desprezo pelos direitos políticos, pela identidade nacional e pelo próprio crescimento pessoal. Como vimos anteriormente, o direito ao consumo passa a substituir o ideal de participação política, o reconhecimento de si enquanto cidadão capaz, sujeito de direitos civis, políticos e sociais. Consequentemente, há a fragmentação da personalidade do indivíduo, que deixa de compor um todo coerente e se torna uma peça de encaixe, sem individualidade, sem identidade e sem poder de ação. O poder de ação é substituído pela ilusão do consumo. Veremos, a seguir, que essa lógica tem um caminho bastante definido: o caminho do enfraquecimento da comunidade nacional.


4 DECEPÇÃO E FRAGMENTAÇÃO: O ENFRAQUECIMENTO DA COMUNIDADE NACIONAL


            Diante das informações apresentadas, podemos afirmar, como McQuail, que “está claro que a mídia de massa contribui para o estabelecimento da percepção da identidade nacional” (McQUAIL, 2012, p. 273). Retomando alguns conceitos problematizados anteriormente, percebemos que a exposição acrítica ao discurso enviesado dos meios de comunicação de massa cria, na consciência dos indivíduos, uma visão distorcida da realidade. Essa visão distorcida alcança também a própria consciência de si e do seu lugar no mundo. Dessa forma, as representações sócio-culturais veiculadas pela mídia começam por afetar a construção da personalidade das pessoas que, ao agir sobre o mundo a partir da visão distorcida que desenvolveram, acabam por ampliar aquela influência da mídia para o âmbito social.
            Uma sociedade construída sobre relações entre personalidades fragmentadas se transforma, mais cedo ou mais tarde, em uma sociedade fragmentada. Retomando a questão da identidade nacional e relacionando tal questão ao desprezo e desinteresse pela capacidade participação e capacidade política, percebemos que há uma tendência ao enfraquecimento, ao apagamento dessa identidade. McQuail assim se refere ao conceito de identidade nacional:

Em geral, o termo refere-se à propriedade coletiva da sociedade que é amplamente reconhecida e pessoalmente importante para muitas pessoas. Seu principal elemento parece ser um senso de pertencer a uma coletividade em especial com atributos comuns (de lugar, idioma, cultura) e um senso de exclusividade. (McQuail, 2012, p. 273).

Quando há o desprezo pela nação e o desinteresse pela participação política, perde-se esse “senso de pertencer”. Quem deseja pertencer a algo que despreza? Quem desejaria ser participante de um sistema que abomina? O indivíduo é vilipendiado em seu direito de propriedade, mas de uma propriedade maior e mais fundamental: a propriedade coletiva da própria identidade nacional.
A questão é muito mais ampla do que os limites que o presente trabalho impõe. No entanto, a discussão apresentada condiciona a propositura de caminhos, de iniciativas que possam reverter o quadro geral. É necessário e urgente que busquemos caminhos para a reconstrução da identidade nacional e para a formação de uma sociedade que se reconheça sujeita de seu destino, capaz e influente.


CONCLUSÃO


            O presente artigo abordou a questão da influência da mídia na construção da identidade nacional. Apresentamos uma proposta de análise para os processos de condicionamento político e econômico e dos meios de comunicação de massa, a partir da construção de representações socioculturais enviesadas.
            Foi discutido o “problema da cidadania”, segundo a proposta de Carvalho (2009) e a substituição do ideal de participação política pelo ideal da cultura de consumo. Apresentamos uma compreensão das possíveis conseqüências geradas por esse processo de desprezo pela participação política.
Avançamos em direção às influencias comportamentais que as representações veiculadas pela mídia podem vir a produzir na sociedade, por meio do condicionamento comportamental gerado pela consciência política que se constrói a partir da exposição ao discurso midiático. Por fim, vinculamos a noção de fragmentação da personalidade individual à fragmentação da comunidade nacional, por meio do esvaziamento da identidade nacional.
Resta-nos propor, à guisa de conclusão, um caminho para a reconstrução desse “senso de pertencer”. Esse caminho é a educação popular. Não há como se reconhecer sujeito de direito sem o desenvolvimento da autoconsciência (self-awareness). Um indivíduo auto-consciente não se posiciona de forma passiva diante das informações que a ele chegam: ele pondera, ele investiga, ele critica. No entanto, só age dessa forma o cidadão que foi ensinado a agir assim. Segundo Carvalho, nos países em que a cidadania se desenvolveu mais rapidamente, foi a educação “que permitiu às pessoas tomarem conhecimento de seus direitos e se organizarem para lutar por eles” (CARVALHO, 2009, p. 11).
            Abrimos breves parênteses para esclarecer um aspecto a respeito da educação. Cabe salientar que não se advoga aqui em prol do socioconstrutivismo ou qualquer outra teoria da educação que se volta contra o ensino de conteúdos e defende a diminuição da figura do professor. Não é possível que o aluno aprenda sem orientação, não é possível criticar o que não se conhece. Dessa forma, não há benefícios em se limitar o acesso do estudante a conteúdos que precisa conhecer. O que se faz necessário é o ensino do raciocínio organizado, da ponderação, até mesmo da humildade acadêmica, para que em seguida esse estudante seja capaz de se posicionar, de formular opiniões críticas, de refletir a respeito da informação que a ele chega.
            Dentro das limitações aqui impostas, nos atemos a essa proposta. A educação é o caminho para a construção de uma sociedade verdadeiramente livre e cidadã. Um país que despreza a educação e que a relega a segundo ou terceiro plano é um país fadado à fragmentação e ao fracasso. Uma reforma política pode aliviar sintomas. No entanto, uma reforma educacional pode curar a doença, ainda que em longo prazo.

Por Lorena Brandizzi, 
Junho de 2017


BIBLIOGRAFIA



BERND, Z. Literatura e identidade nacional. Poa: Editora da UFRGS, 1992.

CARVALHO. Cidadania no Brasil O longo Caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

CASTRO, C. A. P. de. Sociologia do Direito. São Paulo: Editora Atlas S. A., 2009.

CHARAUDEAU, P. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2006.

ESTEVES, J. P. Mídias e Processos Socioculturais. São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2000.

HABERMAS, J,. Comunicação, opinião pública e poder. In: COHN, G (org.). Comunicação e Indústria Cultural: leituras de análise dos meios de comunicação na sociedade contemporânea e das manifestações da opinião pública, propaganda e cultura de massa nessa sociedade. São Paulo: T. A. Queiroz, 1987. Capítulo 10. p. 187-200.

MARTIN, H.-P.; SCHUMANN, H. A armadilha da globalização. São Paulo: Globo, 1999.

McQUAIL, D. Atuação da mídia: comunicação de massa e interesse público. Porto Alegre: Penso, 2012.

QUEIROZ, M. A. M.; SILVA, N. R. Corrupção: a formação da identidade nacional a partir da atuação midiática. In: XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 38., 2015, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro, 2015. Disponível em


[1] KELLNER, 1995, p. 257 apud ESTEVES, 2000, p. 25.
[2] In COHN, 1987.
[3] In COHN, 1987, p. 189.

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